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A Escola e a Sexualidade (GLTTB)

por Roberto Warken

Primeiro e Segundo Graus

Eu afirmo que, com raríssimas exceções, o corpo docente de muitas escolas não está devidamente preparado para lidar com a temática - Educação Sexual -, ao menos no que está prescrito em forma paradigmática, de modelo, nos chamados Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN.

Os PCN descrevem a disciplina de Educação Sexual (que lá é denominado por Orientação Sexual, com o qual este autor não concorda) numa perspectiva transversal, o que impele a que todas as demais disciplinas ditas fixas, como matemática, português, história, etc. tenham que contê-la, de alguma forma. Assim, teríamos, por exemplo, textos na disciplina de português, que poderiam ser pesquisados pelos alunos e alunas, que contivessem temáticas ou algum substrato ligado a sexualidade para que, em sala de aula, a/o professora/r demonstrasse como historicamente "as palavras" são constituídas de teor erótico, sexual; na sua métrica, na poética, descrições, narrações, etc.

Na geografia teríamos, no que se refere a geografia política, por exemplo,  a etno-geografia, que trataria de aspectos regionais e culturais da sexualidade constituídas na relação que as pessoas têm com o ethos, com o espaço biodiverso em que elas estão inseridas. A partir daí, por exemplo, a professora de história poderia juntar estas duas informações e mostrar como a sexualidade distingue-se no que diz respeito a questão tempo-espaço-simbologia, códigos sociais e, como isso se deu no encontro de pessoas pertencentes a diversos grupos. Como os códigos de conduta sexuais passaram de geração a geração, de cultura a cultura, apenas para refletir com os/as alunos/as.

Nas ciências, no caso da biologia, por exemplo, a sexualidade ainda restrita a terminologias que remetem a função reprodutiva dos órgãos genitais. Aparelho reprodutivo masculino, aparelho reprodutivo feminino, são expressões ainda muito encontradas em livros didáticos, por exemplo. E, na verdade, estes são aparelhos sexuais que, além de se prestarem a reprodução, podem se prestar ao prazer, ao desejo. Mas, o prazer, assim como o desejo, não são tratados na biologia. Porque?

De que forma se pode tratar sobre sexualidade no universo da ciência matemática, da física, da química? Um bom experimento matemático em relação a sexualidade ou ao sexo é, por exemplo, trabalhar com as formas poligonais do corpo; a física poderia tratar de como o corpo humano sofre com a gravidade terrestre e a química, com as reações que se produzem no organismo humano quando um adolescente tem sua corrente sanguínea inundada por hormônios sexuais.

O corpo docente, sob uma direção eficaz, poderá sempre produzir um plano político pedagógico para a escola que não somente trate da sexualidade sob os aspectos primários, como a morfofisiológica humana, os desejos e as atrações sexuais. Mas, há os aspectos éticos e morais que devem fazer parte da grade curricular. Assim, por exemplo, não se pode falar de sexualidade sem que se tenha em mente que este aspecto está diretamente ligado a outros como o respeito a diversidade sexual, a diversidade de desejos sexuais, a diversidade de orientações sexuais, cidadania, a diversidade de  expressões do afeto, apenas para citar alguns pontos. Como, de acordo com o conjunto de valores morais, incluímos e excluímos as pessoas, as enquadramos, comportamentalizamos, definimos, esquadrinhamos, etc. Mas, tudo isso tem a ver com a estrutura social onde está incluída esta escola, que tipo de currículos e bibliografias construímos e com que propósitos: de manter o que está hegemonicamente estabelecido ou, numa direção que permita a reflexão, a pesquisa, o encontro de novas respostas para as mesmas questões?

Como são as brincadeiras na escola? Até onde estas brincadeiras não estão carregadas de sexualidade,ou sensualidade? Como é a arquitetura da escola, dos banheiros da escola, ...Como são dispostas as carteiras em sala de aula? Qual é o nível de relação de poder que se estabelece entre as diversas hierarquias: direção, colegiado, administrativos e serviços gerais? Que relações as secretarias estabelecem com essas escolas, sejam elas municipais, estaduais ou particulares?

Até onde a escola é o espaço propiciador para a reflexão emancipadora e libertadora da alienação ou, apenas um aparelho de repetir as mesmas coisas?

Deve a escola lidar sobre a sexualidade, ou não?
Devem os responsáveis relegar a escola o ensino sobre sexualidade, ou não? 
Se os (as) responsáveis sabem que são limitados (as) quanto ao ensino sobre sexualidade e não esperam nada da escola, esperam que seus filhos e filhas aprendam aonde? Na rua?
E, como as escolas vão dar esta formação aos alunos e alunas se professores e professoras têm sérias dificuldades em abordar estes temas em sala de aula seja por total desinformação, seja porque ela ou ele próprio não sabe lidar com sua própria sexualidade; seja porque têm medo das reações de  censura dos (as) responsáveis quanto aos conteúdos? Como esta escola deverá lidar com alunos (as),professores (as), pessoal administrativo que seja gays, lésbicas, travestis, transgêneros ou bissexuais?

 

Universidades, Faculdades e Congêneres

Em nossa sociedade formamos pessoas com as mais diversas especializações, ou seja, especialistas em fragmentos do conjunto de atividades de nossa sociedade. E, há especialistas em fragmentos de fragmentos dos fragmentos, em quase todas as áreas do conhecimento. São tantas as subpartições do conhecimento quanto as dúvidas sobre sexualidade. Isto porque não nos damos conta de que somos em grande maioria, seres sexuais, seres sexualizados.

As pessoas confundem muito sexo com sexualidade. Principalmente, confundem o lugar delas. Então eu vou lhes dizer onde elas se encontram: o sexo fica entre as pernas; a sexualidade, entre as orelhas.

Levamos nossas cabeças e o que temos no meio de nossas pernas às universidades, e para todas as partes do globo terrestre, quer onde estejamos, o sexo e a sexualidade estarão lá conosco. Por isso eu lhes pergunto: porque as universidades insistem em evitar a sexualidade? Porque o Ministério da Educação pensou que devemos tratar sobre sexualidade somente na formação pré-acadêmica? Porque não temos uma Educação Sexual na academia? Porque as especialidades acadêmicas não incluem as sexualidades já que todo o seu corpo discente e docente é constituído de pessoas devidamente sexuais?

Se os(as) profissionais que saem das universidades são dessexualizados(as) e vão trabalhar na formação de crianças e adolescentes, o sistema hegemônico se retroalimenta e forma novos imbecis sexuais. Se estes (estas) profissionais vão para instituições ou empresas, certamente não deixarão de ser imbecis sexuais, e suas vidas sexuais serão muito difíceis.

Portanto, eis a questão: se grande parte da felicidade das pessoas está intimamente relacionada com a forma com a qual ela se relaciona com a sua sexualidade e com a das demais pessoas; se sabemos que grande parte do sofrimento humano advém de nossa ignorância, dos impedimentos relacionados ao exercício pleno de nosso desejo afetivo-erótico-sexual, então porque evitamos isto?

Porque temos tanto receio em aceitar a diversidade sexual humana?
Porque condena-se as crianças em suas incursões sexuais exploratórias?
Porque condena-se gays, lésbicas, travestis, transgêneros e bissexuais enquadrando-os(as) como "anormais", "de comportamentos anti-naturais" e depois os (as) colocamos num regime de apartheid, de segregação, os (as) marcamos socialmente, estigmatizamos e (os) as crucificamos num ato paradoxal de formação judáico-cristã?

 


1996/2010 - Ano XIV - - Roberto Luiz Warken
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